knowledge-gap Logotipo Clínica Dolci Braghini, dentista no Menino Deus em Porto Alegre.

Biologia e Mecânica, os pilares do Movimento Dentário !?

Por alguns anos tenho acompanhado os grandes avanços da Ortodontia Contemporânea. É inegável, clinicamente nossa especialidade está se beneficiando de maneira expressiva com a descoberta de novos materiais e com a aplicação de novas técnicas. Miniimplantes, bráquetes estéticos (até mesmo com slot de ouro 18k), bráquetes autoligáveis, alinhadores estéticos, softwares e planos de tratamento virtuais, impressão 3D . . . enfim, não há o que não haja . . .

Mas confesso, mesmo com todo este êxtase de avanços técnicos e científicos, tem um aspecto que ainda me incomoda, e incomoda muito: Pouco se fala em biologia. Quando eu pego os cronogramas dos melhores congressos nacionais e internacionais de Ortodontia,  cerca de 90% (ou mais) dos tópicos são relacionados a clínica ortodôntica, sendo que em grande parte dessas apresentações há conflitos de interesse. Em outras palavras, existem patrocinadores cujo objetivo final é a venda de um produto. Não que eu seja contra, mas no meu ponto de vista, eu dependo tanto da biologia quanto da mecânica, para realizar os meus tratamentos.

O mais hilário é que são vastos os estudos que, teoricamente, abordam a “biomecânica do movimento dentário”, e isso parece resumir-se ao estudo de aspectos físicos (momentos de força, torques, atrito. . . .). Ou seja, pressupõe-se estar se falando em biomecânica, mas o que se vê são associações entre os tipos de movimentos dentários gerados a partir de um determinado sistema de forças.

Confesso que essa abordagem com o foco apenas na “mecânica”, parece soar como um jogo de tênis sem adversário. Isso mesmo, quando você vai jogar tenis sozinho, o máximo que se consegue é bater uma bola contra o paredão. Assim, você tem em suas mãos o controle de todas as variáveis do jogo. Ter a mecânica como único norte, num tratamento, é acreditar que você dá as cartas do jogo. Porém, no jogo de tênis real, você divide igualmente com o seu adversário o controle do jogo. A imprevisibilidade do adversário fará você mudar constantemente a sua conduta planejada, e que vença o melhor . . . .

Ou seja, o que se tem visto é uma faceta simplista da biomecânica ortodôntica, o que se tem viso é a mecânica per se, absenta da biologia do movimento dentário.  Por isso, sugere-se que a biomecânica seja estudada e analisada no seu mais amplo aspecto, o que ajudaria a reduzir o gap de conhecimento existente entre a clínica e a biologia do movimento dentário. Você quer ver a prova incontestável desse descompasso? Pois bem, vamos fazer um teste:

Você sabe qual o sistema de forças que deve ser usado para retrair um canino num movimento de corpo (translação)? Que fio deve ser usado e qual a magnitude da força? O que deve-se fazer se tal dente inclinar distalmente em demasia? Provavelmente a sua resposta é precisa, para cada uma dessas indagações.

Mas agora, você sabe quais são, onde e quando ocorrem as alterações físico-químicas e celulares que possibilitam tal movimento dentário? Você saberia dizer as diferenças dessas condições, em um movimento de inclinação controlada ou de translação?

Puxa, essa barbarizou, não é?

Talvez grande parte dos ortodontistas baseie sua resposta na formidável Teoria “Pressão-Tensão”, de Schwalble e Flouren (1841), mas cá pra nós, estamos em 2017. Apesar de sabermos da importância dessa Teoria para o desenvolvimento de nossa especialidade, ela já sofreu grandes modificações. Nesse contexto, deveríamos citar a teoria dos microcracks, a importância do cross-talk entre as células, dos fatores locais e sistêmicos, o sistema RANK/RANKL/OPG, enfim, uma vasta gama de fatores que influenciam o movimento dentário e estão sob a luz da literatura científica atual.

Bem, e aonde eu quero chegar com esse papo? O que eu queria mesmo era te deixar com essa dúvida, com essa incerteza, pondo à prova a ambiguidade entre “o novo” (que o mercado te empurra, muitas vezes por um interesse capitalista) e o “natural”, o “biológico”. Afinal, o que importa mais para o prognóstico do um tratamento – o novo bráquete? A nova técnica? O aparelho de última geração? Ou será que uma acurada investigação sobre a biologia inerente a cada indivíduo é ainda mais importante? Qual a espessura da cortical óssea? E o tamanho das raízes? Qual o tipo facial e como é o desenvolvimento da musculatura? Há algum histórico pregresso relevante?

Enfim, não há dúvidas, já é tempo de sermos críticos e honestos, precisamos focar mais na biologia e deixar de lado essa visão simplista que a “maior” técnica é a única solução de nosso problema. . . . não adinata comprar o melhor bráquete, nem o melhor aparelho. . . .tem mesmo é que queimar ATP e ponderar todos os fatores que acercam o caso, só isso permitirá uma conduta apropriada e aumentará as suas taxas de sucesso.

 

Gabriel Schmidt Dolci