Filling the gap – Parte I

Ensaios sobre a biologia ortodôntica

 

O fechamento do gap entre a biologia e a clínica do movimento dentário está muito aquém, se quer, de nossa mais criativa imaginação. Em outras palavras, um cientista, ao investir neste campo, já tem uma ideia real e previsível do desfecho final de sua pesquisa, do ponto de vista que seus achados não serão imediatamente aplicáveis à clínica diária. Numa analogia rasa, existia algo mais previsível do que torcer para o Rubinho Barrichelo ser campeão da Fórmula 1? A gente sempre torcia, mas já tinha certeza do que ia acontecer. . . . Enfim, valiam as tentativas (nossa e dele, grande piloto).

Por outro lado, o que nos conforta é saber que inúmeros ensaios, a fim de desvendar os mistérios que regem a biologia do movimento dentário, são realizados diariamente, em diferentes laboratórios e clínicas ortodônticas. Para se ter uma ideia, ao realizarmos um levantamento dos artigos científicos publicados internacionalmente (www.pubmed.com) com os unitermos “biomechanics and orthodontics ” e “biology and orthodontics”, observamos um  crescente interesse científico nessa última área (Figura 1).

Figura 1. Evolução da produção científica usando os unitermos: “Mecânica + Ortodontia” e “Bilogia + Ortodontia”, entre os anos de 1976 e 2015. Notoriamente, o estudo da biologia aplicada à Ortodontia tem ganhado espaço no cenário científico. (www.pubmed.com)

De fato, isso nos traz a certeza de que uma base sólida está sendo criada. Cada pesquisa, cada achado, cada esforço, parecem ser como grãos de areia dispersos num vasto universo, os quais, num futuro breve, se conectarão de forma definitiva.  A partir daí, tudo fará sentido, tudo será incrivelmente óbvio. Só então gozaremos dos reais benefícios da biologia celular e molecular aplicados à Ortodontia, o que será abordado posteriormente (Parte III).

 

Enquanto essa nova era não chega, gostaria de explicitar ao ortodontista clínico uma visão simplista e atual sobre a biologia do movimento dentário. Nesse momento (Parte I), serão abordados apenas alguns aspectos básicos, baseados em 2 teorias que se complementam de forma muito harmônica: 1) A teoria da Pressão – Tensão e; 2) a teoria da Transmissão de Fluidos.

 

A teoria “Pressão – Tensão” explica a biologia da movimentação dentária induzida por considerar que, ao aplicarmos uma força sobre um elemento dentário, será gerada uma zona de pressão e outra de compressão no ligamento periodontal, como observado na Figura 2. A partir daí, ocorre um distúrbio na homeostasia tecidual, estimulando a remodelação do osso alveolar e do ligamento periodontal, assim movimentando o dente. Salienta-se que uma pré-condição deste evento é a ocorrência de um processo inflamatório nos tecidos periodontais adjacentes ao dente e, neste contexto, alterações vasculares e celulares induzidas por mediadores químicos, característicos da inflamação, possibilitam o movimento dentário induzido.

Figura 2. Zonas de pressão e tensão geradas durante o movimento dentário induzido. Flecha indica a direção e o sentido da força aplicada. Tal estímulo mecânico induzirá a diferenciação celular em osteoclastos e osteoblastos nas zonas de pressão e tensão, respectivamente, assim  promovendo a reabsorção e a neoformação óssea, conforme ilustrado. (Kitaura et al1)

Já a segunda teoria considera-se que, após a aplicação de uma força ao dente, este irá se mover por certa distância, havendo uma mudança quase imediata no fluxo de fluidos do ligamento periodontal, nos lados de pressão e tensão, o que estimularia a transmissão de fluidos entre os osteócitos (Figura 3). Quanto a isso, duas alternativas foram propostas: 1) a transmissão de fluidos seria estimulada por um agente mecânico externo e; 2) durante o movimento dentário induzido ocorreriam micro lesões no osso, que estimulariam a transmissão de fluidos intraósseos. Assim, tanto a deformação da matriz, como a transmissão de fluidos no ligamento periodontal, causarão uma deformação nas células deste microambiente, induzindo a sinalização de integrinas e de outros caminhos de transdução, por meio dos quais mediadores serão produzidos e ativarão diversos tipos celulares.

Figura 3. Diagrama representativo da teoria da compressão de fluidos, que contempla os estímulos celulares nas zonas de pressão (gerando a degradação da matriz extracelular) e tensão (gerando a neoformação da matriz extracelular).

O vídeo abaixo explica o Diagrama na Figura 3.

Como dito anteriormente, os conhecimentos aqui abordados são muito incipientes, mas não há dúvidas que serão fundamentais para que entendamos os demais aspectos inerentes à biologia do movimento dentário. Sendo assim, à seguir, abordaremos a inter-relação entre a clínica e a biologia do movimento dentário (Parte II) e, finalmente, faremos algumas prospecções, baseados no atual conhecimento científico sobre esse assunto (Parte III). Ou seja, ainda temos muito para discutir. . . .

 

Um abraço e até a próxima 😉
Gabriel.

gabriel@dolcibraghini.com.br

KITAURA, H. et al. Effect of cytokines on osteoclast formation and bone resorption during mechanical force loading of the periodontal membrane. ScientificWorldJournal, v. 2014, p. 617032, 2014. ISSN 1537-744X. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24574904 >
HENNEMAN, S.; VON DEN HOFF, J. W.; MALTHA, J. C. Mechanobiology of tooth movement. Eur J Orthod, v. 30, n. 3, p. 299-306, Jun 2008. ISSN 1460-2210 (Electronic)  0141-5387 (Linking). Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18540017 >.