Filling the gap – Parte III

Perspectivas: o impacto da biologia celular e molecular sobre a clínica ortodôntica

 

Não há dúvidas que a aplicabilidade clínica dos conhecimentos biológicos inerentes ao movimento dentário induzido será um grande marco da Ortodontia Moderna. Talvez, muitos clínicos percebam essa afirmativa como um devaneio, nada mais do que pura ficção científica. Mas a realidade é que existe um amplo esforço científico para que isso se torne realidade. Além do mais,  há um grande interesse capital nesse campo, especialmente da indústria farmacêutica, que parece aguardar ansiosamente o desbravamento desse novo mercado.

Se considerarmos o atual estado do conhecimento científico, rapidamente nos daremos conta de que grandes descobertas estão a um pequeno passo de se tornarem realidade. Aqui, ainda em caráter especulativo, sugerimos algumas das tangíveis aplicabilidades clínicas da biologia celular e molecular:

1.  Diagnóstico Ortodôntico – Um dos grandes avanços da Ortodontia deverá ser dado pela utilização de marcadores séricos, como indicadores do diagnóstico ortodôntico. Ou seja, um determinado indivíduo poderá ser diagnosticado com uma maior ou menor propensão a desenvolver reabsorção radicular, por exemplo. Alguns estudos, ainda em ratos, já apontam para tal realidade. Em outras palavras, se você apresentar taxas elevadas de determinada proteína em seu sangue, isso representará uma maior chance de desenvolver a reabsorção radicular (Figura 1).

Correlação positiva e significante entre os níveis séricos da proteína RANKL, no início do tratamento, e a ocorrência de reabsorção radicular.
Figura 1 – Correlação positiva e significante entre os níveis séricos da proteína RANKL, no início do tratamento, e a ocorrência de reabsorção radicular.

2.  Modulação medicamentosa do turnover ósseo – parece evidente que a indústria farmacêutica terá, em breve, uma atuação mais eficaz e efetiva sobre a clínica ortodôntica. Como já descrito em textos anteriores, aqui mesmo neste blog, a aceleração ou o retardo do movimento dentário parece estar associado a fatores como o turnover/características dos tecidos ósseo e periodontais (especialmente do ligamento periodontal e das fibras que atuam no o suporte do elemento dentário). Nesse sentido, diversos estudos têm avaliado o papel de drogas sobre a recidiva ortodôntica, o que poderia aumentar o poder de estabilização dos dentes num período imediato após a remoção do aparelho fixo. Em estudos laboratoriais recentes, confirmamos o poder das estatinas (Atorvastatina) na inibição da diferenciação osteoclástica, o que gerou uma redução do movimento dentário e da recidiva ortodôntica (Figura 2). Por outro lado, a aceleração do movimento dentário por meio de drogas também deve ser considerada, e também tem sido relatada em estudos pré-clínicos.  Apesar de eu tratar este assunto com uma grande empolgação, deve-se ressaltar que a aplicação clínica destes conhecimentos ainda está muito aquém de ser uma realidade e, como foi dito anteriormente, qualquer afirmativa nesse sentido não passa de especulação;

Figura 2 – A administração de atorvastatina, em ratos, parece reduzir o número de osteoclastos(B) e, por consequência, inibe o movimento dentário de recidiva (A). SAL – grupo que recebeu solução salina; ATV – grupo que recebeu atorvastatina.

3.  Tratamento de afecções inerentes à movimentação ortodôntica – quando lemos esse tópico logo nos vem à cabeça “Tratamento da Reabsorção Radicular”, não é verdade? Pois bem, a modulação do turnover ósseo, conforme visto anteriormente, deverá se estender para um possível controle da diferenciação osteoclástica nos demais tecidos duros, tais como o cemento radicular. Isso representaria, num primeiro momento, um plausível tratamento da reabsorção radicular. Após, deverão vir outros aspectos mais complexos, tais como o estímulo à neoformação do cemento já reabsorvido.

4.  Controle do crescimento craniofacial – puxa, essa parece devaneio mesmo, não é??!! Bem, vou tentar explicar os argumentos que me fizeram ponderar esse tópico: Diversos estudos apontam para a atuação de drogas sobre a ossificação endocondral de ossos longos, estimulando-a ou inibindo-a… e vocês sabem né, a mandíbula é comparada, didaticamente, com um fêmur em forma de “U”… não vou entrar no mérito dessa analogia simplista, afinal, o disco epifisário cartilaginoso condilar é de origem secundária, diferentemente do seu coirmão, localizado no fêmur… Então, eu não poderia deixar de colocar esse tópico, que para mim, confesso, ainda parece ficção científica…

Figura 3 – Em animais tratados com atorvastatina, por 21 dias, o disco epifisário do fêmur apresentou-se com maior dimensão (*).

Eu até poderia escrever mais sobre o assunto, poderia continuar especulando, imaginando, mas essa não é a ideia, apesar de ser um ótimo exercício para testar nosso poder de criatividade… Acabei detalhando o que imagino serem os primeiros avanços biológico-clínicos que testemunharemos no futuro. Mas para que isso ocorra, ainda precisaremos de muitas e muitas pesquisas pré-clínicas, à semelhança daquelas que realizamos ainda em 2016, com o intuito de investigar os efeitos celulares e moleculares de drogas sobre o movimento dentário. (aos interessados, favor clicar aqui para obter nosso artigo).

Por fim, no estágio em que estamos, é difícil de acreditar em outro desfecho que não seja o impacto dos conhecimentos biológicos laboratoriais sobre a Ortodontia, a mais clínica das especialidades odontológicas… este parece ser um caminho sem volta, quem viver verá…

 

Um grande abraço! E qualquer dúvida, por favor contatem-me.
Gabriel.

gabriel@dolcibraghini.com.br