O caminho do meio

Profissionalmente, nossa rotina é marcada por uma reavaliação constante do problema ortodôntico, o que deve ser realizado com critério, assim consumindo tempo e exigindo  dedicação. Nesse processo, uma coisa é certa: os extremos tendem a não serem os melhores caminhos. Para chegar a essa conclusão, basta-nos refletir um pouco. . . .

No mês passado, participei de uma palestra excepcional, realizada por um grande ortodontista. O simpósio foi patrocinado por uma empresa multinacional que fabrica diversos tipos de materiais ortodônticos. Foram mostrados casos clínicos muito bacanas, todos com uma impecável finalização, a qual era frequentemente associada ao uso de um determinado tipo de bráquete e técnica. Enfim uma apresentação de encher os olhos. Ao final da palestra, conversando com alguns colegas, interessantemente, observei diferentes comportamentos da plateia, dentre eles, gostaria de salientar dois tipos:

  1. Os céticos e conservadores – parecem acreditar que tudo é uma ilusão, ou melhor, uma falácia. . . .Tendiam a comentar que as fotos dos casos clínicos tinham sido editadas em demasia, que tudo não passava de uma grande jogada de marketing para tentar vender aquele bráquete. . . .Ficavam resmungando e certamente não irão aplicar absolutamente nada do conhecimento exposto em sua clínica diária, ou seja, continuarão a tratar os seus casos exatamente da mesma forma que faziam antes de assistir ao curso;
  2. Os “receita de bolo” – tendiam a acreditar que conseguirão tratar todo e qualquer caso com aquele bráquete e aquela técnica, conforme exposto na magnífica aula.  Acreditam que todos os seus problemas clínicos serão solucionados a partir de agora, basta eles seguirem o protocolo apresentado pelo palestrante. Em outras palavras, creem que a Ortodontia possa ser realizada de forma simplista e, ao final do curso, já providenciaram a compra de várias bocas do bráquete, além do “livro de receitas”. . . . Por fim, acreditam que este foi realmente um curso transformador e, a partir de então, tudo será diferente. . . .

Mas a experiência e os cabelos brancos nos mostram que não é bem assim.

Indubitavelmente, há muitas coisas boas por aí e precisamos estar abertos a todas novas alternativas ortodônticas.  Palestras como esta que me referi parecem ser extremamente úteis, já que podem expor soluções clínicas diferentes para um mesmo problema clínico. Trata-se de uma outra perspectiva, uma outra forma de abordagem. Mas precisamos salientar que na maioria das vezes isso não tem nada a ver com o bráquete que está sendo utilizado, mas sim com diagnóstico, plano de tratamento e a mecânica em si. O melhor de tudo é que quando vemos algo assim, de alto nível, ficamos contagiados pela possibilidade de reproduzir aquele resultado clínico, ou seja, acabamos por elevar nosso padrão, sempre na busca de uma finalização excelente.

Resumindo, nossas decisões clínicas devem ser estudadas continuamente, aproveitando-se de novas ideias, técnicas e produtos. . . Porém, não há receita de bolo, precisamos achar e desbravar o caminho do meio, este sim pode ser útil. Enfim, necessitamos do poder crítico dos céticos e da resiliência dos fortes, afinal, a adaptação é uma premissa básica da evolução.

Um abraço,

 

Gabriel.

gabriel@dolcibraghini.com.br