equilibrista Clínica Dolci Braghini, dentista no Menino Deus em Porto Alegre.

A tênue linha que separa a fisiologia e a patologia do movimento dentário

 

Não há dúvidas que a Ortodontia é uma especialidade privilegiada dentre as demais especialidades odonto-médicas. Está certo que o meu ponto de vista é parcial, mas veja bem:

 

Imaginemos uma situação corriqueira, na qual um indivíduo apresenta sua função mastigatória razoável, porém se incomoda com um apinhamento ântero-inferior moderado. Nessa circunstância, apesar de haver uma maloclusão, os dentes estão inseridos adequadamente no tecido ósseo de suporte, não havendo qualquer tipo de alteração patológica sob o prisma biológico. Ou seja, não há doença periodontal, não há cáries, não há periapicopatias. . . .a condição no microambiente periodontal, na interface dente – ligamento periodontal (LP)- tecido ósseo, é absolutamente fisiológica.

E é aí que está a magia e a peculiaridade da nossa especialidade. Sob essa condição fisiológica, ao aplicarmos uma força mecânica sobre a coroa do dente, será gerado um processo “fisiopatológico”  na região periodontal. Este, por sua vez, é representado por um processo orquestrado de reabsorção e aposição óssea, assim permitindo o movimento dentário. Ou seja, sendo pragmático, podemos dizer ao movimentarmos um ou mais dentes, geramos uma condição pró-inflamatória no microambiente periodontal, o que nada mais é do que uma “patologia transitória”, programada, cuja relação custo benefício vale muito, muito a pena. Afinal, olhem o sucesso e o espetáculo que é a nossa Especialidade.

E pasmem, tem mais.. . .

. . . para a nossa sorte, o osso alveolar e o cemento radicular respondem de maneiras distintas ao mesmo estímulo inflamatório gerado pelo movimento dentário. Por exemplo, ao movimentarmos um dente, na superfície óssea há uma alta taxa de diferenciação celular em osteoclastos, enquanto sobre a superfície dentária essa condição pouco é vista . Acredita-se que as células que revestem a raiz/cemento, não respondem aos mediadores químicos que promoveriam a diferenciação osteoclástica, ao contrário do que acontece no tecido ósseo. Nesse último, assim como no LP há uma grande responsividade aos mediadores da osteoclastogênese, mas isso é um tema para outras discussões. Não fosse essa mera condição, o movimento dentário seria extremamente deletério, impraticável, uma vez que seria sucedido por uma extensa reabsorção radicular.

Em suma, ao movimentarmos um dente nós estamos criando um ambiente hostil para o cemento radicular. Ph ácido, osteoclastos sendo diferenciados nas adjacências do dente, compressão do LP com redução de aporte sanguíneo. . . .é tudo de ruim. . . pode-se dizer que está.todo mundo a fim de dar uma abocanhada naquele pedaço de cemento intacto. . . Nesse sentido, sob a luz da literatura, são descritos alguns fatores de risco à reabsorção radicular, tais como: tempo de tratamento prolongado, movimentos dentários de vai e vem, forças contínuas e excessivas, raízes curtas, entre outros. . . . Se nós formos racionais, todos esses fatores de risco dizem respeito ao grau de inflamação gerado no periodonto e ao período de persistência do mesmo. Por isso, devemos atentar para algumas condições clínicas que parecem representar o limite entre o movimento dentário fisiológico (aquele que não gera reabsorção radicular), e o patológico (aquele associado à reabsorção radicular); são elas:

– O tempo que o paciente está em tratamento. *Quanto maior o tempo de tratamento, maior o risco de haver um ataque osteoclástico à raiz do dente;

– Foi utilizada alguma mecânica com forças pesadas (retração de incisivos, por exemplo)? Caso positivo, há um controle radiográfico personalizado para esse paciente (antes e após retrair incisivos)? Qual foi o período de utilização dessa mecânica ?

– Na instalação do aparelho fixo, lembre-se que, se você planejou retrair incisivos, talvez seja uma boa opção não colá-los inicialmente. Em muitos casos, essa tatica evitará movimentos de vai e vem;

– Você observou se as raízes do seu paciente são romboidais/curtas? Se forem, lembre-se que quanto menor a área, maior a pressão (o que significa maior a força na interface dente/osso).

 

Ainda vale ressaltar o fato dos conhecimentos biológicos da Odontologia estarem muito aquém daqueles utilizados clinicamente pela Medicina contemporânea, o que  torna necessário uma percepção clínica seja ainda mais acurada de nossa parte. Em outras palavras, o que estou querendo dizer é que obviamente existem fatores individuais que predispõem à reabsorção radicular, mas nós ainda os desconhecemos, ainda não conseguimos identificá-los por um exame sérico, por exemplo. . .  Enfim, ainda temos muito o que estudar, aprender e só depois extrapolar para a prática clínica. Por ora, para os interessados em entender um pouco mais sobre a biologia do movimento dentário, estou disponibilizando alguns materiais didáticos.

Então, divirtam-se. . . . 🙂

 

Biologia Óssea e Biologia do Movimento Dentário: Apresentação

Como as drogas podem afetar o Movimento Dentário: Tese | Apresentação

 

 

Um abraço,  Gabriel (gabriel@dolcibraghini.com.br)

 

“Aqueles que são apaixonados pela prática sem a ciência são iguais ao piloto que navega sem leme ou bússola e nunca tem certeza para onde vai”

Leonardo Da Vinci